Eleições em Vale do Sol 2008: o filme
(ABUSO DE PODER)
(Este artigo também foi publicado pela Gazeta do Sul e Folha do Vale, em dezembro de 2008.
Não há como não fazer uma análise séria, crítica e coerente a respeito da decisão judicial, em primeira instância, em que a então prefeita de Vale do Sol é acusada de abuso de poder. Saliente-se que ‘abuso de poder’ significa usar o poder para si, sem preocupar-se com a vontade coletiva, fazendo de tudo para manter-se no poder, mesmo contrariando tal vontade. Mas agora nosso filme “o jogo” teve mudança de protagonistas. “O pingue-pongue” continua, os jogadores continuam, mas a “bola” mudou: agora é um paraplégico.
Abuso de poder não é uma prática recente. Crianças na escola aprendem a este respeito. Tanto que Paulo Freire, um dos principais educadores brasileiros, escreveu sobre “A Pedagogia do Oprimido”, em que nos esclarece a obscura cadeia da opressão: alguém lá de cima oprime seu imediato, que oprime o seu súdito, até que a opressão chega ao chefe de família, que oprime seus filhos e estes..., bem, as escolas estão cheias de crianças briguentas. Esta cadeia traz no seu topo alguém que não pensa neste detalhe. Só há opressão com abuso de poder.
É preciso uma análise nua e crua sobre o processo político em Vale do Sol, pois finalmente alguém teve coragem de denunciar uma prática tão antiga e tão assistida por aquela comunidade. Não terminei a faculdade de Direito talvez por entender que a Justiça é um ideal e que o Direito busca este ideal, mas quem sentencia são os juizes, seres humanos iguais a nós, que possuem valores individuais e principalmente, que se apóiam na ordem. Mas que ordem? Como não sou advogado nem juiz, me cabe apenas escrever sobre minha opinião pessoal. Natural de Santa Cruz, fui levado pela família ainda criança – que até hoje habita a Linha Alto Castelhano, para Trombudo – 7º Distrito. Já naquela época deu para perceber o abuso de poder. Até o grêmio estudantil da Escola Guilherme Fischer, onde estudei, fez campanha educativa a favor da emancipação. E o “Sim” ganhou, mas o pessoal do “Não” foi eleito 4 anos depois. Na primeira gestão da turma do “Não”, eu já era professor de teatro e encaminhei meus projetos para a prefeitura. Alguém sabe porque não fui convidado a contribuir com a cultura de Vale do Sol na gestão do “Não”? Abuso de poder? Não né? (...)
E nesta gestão novamente, foi o período em que mais me senti partícipe do núcleo municipal numa gestão do povo do “Não”. É que meu irmão, Rafael, cursava as séries finais do Ensino Fundamental na Escola Municipal Willibaldo Michel, em Alto Castelhano, e eu, então morando no Paraná, cursava Pedagogia e já tentava entender o processo de ensino e aprendizagem com arte. Mas não dei aula lá a convite da Prefeitura, óbvio. Eu me ofereci, gratuitamente. A boa recepção da direção e professores proporcionou momentos riquíssimos com os adolescentes daquela comunidade, motivo de matérias na Folha de Vale do Sol.
Para entender sobre o abuso de poder na gestão que está se encerrando em Vale do Sol, a pessoa tem que morar lá e fazer campanha para o outro lado. Se não acreditam, experimentem ficar lá um tempo, abrir uma banca, tem que ser de aparência humilde, nada pomposo igual ao Judiciário, um lugar onde as pessoas possam parar e denunciar o abuso de poder, ou um lugar escondido, um quarto escuro, onde as pessoas não possam ser vistas falando, sem medo.
Quanto a reclamar, embasado no Artigo Primeiro da Constituição, ninguém faria isso, nem mesmo eu, pelo mesmo motivo do paraplégico. Ou melhor, ele, pela própria dificuldade em encontrar os meios jurídicos, ou talvez pelo medo da opressão, mas eu, que não tenho esse medo e dificuldade, por saber que tudo acaba em pizza. Filmes são assim!
Rodrigo Ribeiro
Pedagogo, especializando em Docência do Ensino Superior
Porto Alegre – RS (ex- morador de Vale do Sol)
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