terça-feira, 4 de agosto de 2009

Vale do Sol e sua dilacerada soberania popular: nova eleição, “filme” ou “novela”?

Vale do Sol e sua dilacerada soberania popular:
nova eleição, “filme” ou “novela”?
Rodrigo Ribeiro*
rodrigo_cultura@yahoo.com.br

Acompanhar ao vivo o julgamento do Recurso impetrado pela coligação encabeçada por Nelson Michel, na última terça-feira em Porto Alegre, em que foi confirmada a Cassação de sua candidatura, trouxe-me a impressão de que a democracia e a justiça foram reféns de uma fita mal gravada.
Não se discutiu a verdade sobre a venda do voto – o que, cá entre nós, quem é de Vale do Sol sabe bem como foi - apenas deu-se todo o crédito a uma fita e uma entrevista em rádio local e pronto: tem-se a soberania popular dilacerada. Não houve como contrariar ou condenar os desembargadores do TRE, porque eis as ciências jurídicas a serviço da humanidade: a fita é uma prova fática confirmada pela entrevista, em rádio, de um dos interlocutores. O resto não se discutiu e foi feliz a “produtora” da prova.
Recursos à parte – o processo ainda deve andar –, mas sabemos o que não está nos Autos, o que jamais os juízes saberão. Estou falando dos motivos que levaram aquelas 2 ou 3 pessoas a protagonizar toda a cena. Se, por um lado, houve a entrega de dinheiro a um eleitor, por outro, houve o pedido de dinheiro desse eleitor e o que é pior, vários eleitores pediram dinheiro para vários políticos e em várias cidades. Isso não teria sido prova cabal no processo, conforme afirmação até de uma juíza do TRE, mas... a tal fita e a tal entrevista na rádio, estas sim, foram determinantes.
Já se comentou em outra oportunidade que os julgadores dessa questão deveriam passar uma boa temporada em Vale do Sol para entender o que realmente aconteceu, mas, como isso é impossível, resta ao povo valessolense o orgulho ferido: é o mínimo sentimento que deve estar brotando da alma de cada um dos mais de 50% de eleitores que votaram ano passado, pensando ter escolhido seu prefeito. Se fosse apenas o orgulho, tudo bem, pois é comum vermos a dignidade popular sendo pisada, mas estamos falando de gente humilde, que passa a vida trabalhando arduamente e que, por algum motivo, depositou no voto em 5 de outubro toda sua fé em dias melhores. Fé esta que foi simplesmente jogada aos porcos. Não obstante tudo não ter passado de uma verdadeira encenação, alguém pensou nos recursos públicos gastos para organizar uma eleição? Nos incômodos gerados pelas brigas políticas? Naqueles que nada importa o resultado da eleição, pois ao amanhecer de cada novo dia, não têm nada a fazer a não ser trabalhar?
Como águas passadas não movem moinhos, Vale do Sol entra novamente em clima eleitoral. Mas o que não sabem as pessoas que armaram toda essa “novela”, gerando a cassação de um prefeito eleito com mais de 50% dos votos – ou fingem não saber, é que esses votos significam que mais de 50% dos eleitores de Vale do Sol estão enfurecidos, com sua dignidade democrática abalada, sentindo-se enganados pelo que se acreditou ser o exercício da democracia. Não imaginam que agora estes eleitores poderão multiplicar sua ira fazendo a verdade prevalecer? Já que queriam um julgamento, o povo de Vale do Sol será o mais coerente juiz. Esta é uma verdade real e consciente, de que o povo não é ignorante a isso tudo e que na hora certa, nas urnas, dirá em alto e bom tom o que pensou dessa armação toda.
A quem gosta de novelas, é bom lembrar de “A favorita”, em que a personagem “Flora” parecia sempre ganhar, mas alguém lembra qual foi seu fim fictício? Acabou menosprezada e até humilhada por todos que envolveu em suas farsas.
Que fique a mensagem, nada a ver com o contexto do artigo ora escrito, mas que em suas entrelinhas, a um bom entendedor, tudo diz.


* Pedagogo, professor de teatro,
especializando em docência do ensino superior
Porto Alegre – RS
filho e irmão de eleitores de Vale do Sol

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